Ser Caloiro

(in revista do OUP, Dezembro de 1964)

Ser "caloiro"... eis uma situação que traz consigo uma série de incógnitas, que implica uma acção social diferente do habitual..., uma situação aparentemente desagradável e incómoda, que cada um que a sente não sabe definir bem e, por princípio, deseja ver ultrapassada o mais depressa possível.

Ser "caloiro" não é uma situação igual em todos os meios universitários: desde o "caloiro" impessoal primeirista duma Faculdade, imbuído de tradicionalismo praxístico e despido de personalidade própria, dado que apenas se dá valor ao conjunto abstracto de "caloiros" e não a cada um em si...até aos "caloiros" dos organismos circum-universitários que são encarados como seres que há que guiar, individualmente, atendendo às características próprias de cada um, uma distância enorme vai.

Caloiro do Orfeão, a quem dirijo especialmente estas palavras, tu não és um "caloiro" qualquer! Sentirás a tua situação, viverás durante um ano aspirando pela qualidade de Orfeonista com "O" maiúsculo e terás que trabalhar para a merecer e conseguir!
Enquanto lês este escrito, provavelmente inquires a ti próprio: "Afinal, qual é o meu papel no meio de tudo isto?"

Sim, é verdade! Tens um papel a desempenhar, muito importante, que te vou dizer qual é.
Caloiro, o O.U.P. adquiriu e mantém o seu prestígio graças ao esforço e dedicação de sucessivas gerações de Orfeonistas...dos tais com "O" maiúsculo! Aqueles que saem, no fim da sua vida orfeónica, não receiam, com a sua saída, perigar a existência do Organismo: confiam nos que ficaram e nos que entraram. Também os que ficam não temem que a sua dedicação seja vã, pois esperam que aqueles que entraram, os "caloiros", continuem, num futuro próximo, a levar bem alto, o facho que há já longas décadas arde sem desfalecimento.

Como vês, caloiro, todos confiam, não no que és presentemente, nota bem, mas sim no que poderás vir a ser, confiam nas tuas possibilidades e no teu querer de as evidências, confiamos nós que, actualmente, guiamos o barco, confiam aqueles que já o deixaram mas continuam íntima e espiritualmente ligados ao O.U.P.; confiam os cinquenta o tal anos de existência do Orfeão que serão, possivelmente, o juiz mais severo do teu comportamento!
Compreendes agora, verdadeiramente, o que vem a ser o "caloiro" do O.U.P.? Aqui, ser "caloiro" é tirocinar, apreender e aprender, colher da experiência dos"velhos" o que te falta para, juntamente com dedicação, boa vontade e carácter, estares um dia apto a ser um dos tais Orfeonistas com "O" grande. Tens que te submeter à orientação dos mais velhos para que possas, futuramente, vir a orientar também.

Como verificas, ser "caloiro" no Orfeão é uma situação positiva, trabalhosa, é certo, mas que serve para aquilatar do vosso potencial; na realidade, é uma oportunidade que se vos dá a todos e, como diz a parábola, "quando a seara estiver madura, fácil será sparar o trigo do joio"... no entanto, esperamos que o joio nem sequer chegue a vingar!
Caloiro, só poderás conhecer, compreender e gostar do Orfeão desde que saibas ser "caloiro", desde que procures, na tua situação de aprendiz, aprender de facto; como já tive ocasião de te dizer, terás que ceder um tanto da tua própria maneira de ser para te integrares verdadeiramente no Orfeão e não te manteres como um ser aparte; verás que ser "caloiro", aqui, no O.U.P., constitui uma das mais interessantes experiências que terás ocasião de viver!

Repara, amizade e camaradagem só têm bases firmes e duradoiras quando cimentadas pela colaboração mútua, pelo trabalho realizado em comum em prol de um ideal também comum. Tu, caloiro, vais conhecer esse ideal, vais trabalhar connosco, melhor, vais aprender a trabalhar pelo Orfeão.

Caloiro, quando, um dia, eu já cá não estiver e tu pensares em dedicar algumas linhas aos "caloiros" que nessa altura venham a entrar no Orfeão, reconhecerás então, pela segunda vez, que tenho plena razão!

Beirão Reis